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19 de Setembro de 2019

Ressocialização, segundo o Seu Cardoso.

Um olhar sobre os valores da Sociedade.

Fernando Lazarini, Gerente de Projetos de Tecnologia da Informação
Publicado por Fernando Lazarini
há 6 meses

Seu Cardoso é uma figura que marcou demais minha forma de ver o mundo. Homem sério e de atitudes sempre voltadas à família, ao trabalho e à Igreja Luterana. Muito amigo de meu pai, que apesar de sermos de Orientação Espírita, ambos sempre tinha longas conversas sobre nossas orientações religiosas.

Júnior, o filho mais novo do Seu Cardoso, é meu melhor amigo desde a infância. Não tinha muita vocação para os estudos e eu era estudioso até demais. Ele era chamado de vagal e eu de CDF. Então seu pai, que queria um futuro melhor para seu filho, gostava muito de nossa amizade.

Aos 10 anos, meu pai faleceu e seu Cardoso passou a ser uma referência para todos os rumos em minha vida.

Quando entramos no ensino médio, em 1981, eu e meu amigo fomos morar em Ribeirão Preto - SP, cidade maravilhosa que era possível morar sem a violência de hoje em dia. Seu Cardoso foi nosso maior incentivador, convencendo minha mãe de que eu também deveria ter um estudo melhor do que em nossa pequena cidade.

No entanto, tínhamos que cumprir algumas condições: estudo diário e frequentar, semanalmente, nossas respectivas entidades religiosas. Cinema apenas uma vez por mês. E para Ribeirão Preto fomos nós.

Mas não cumprimos o prometido. Não íamos para nossas igrejas e os estudos não eram diários. Seu Cardoso também não tinha como fiscalizar e assim os dias iam passando.

Além de não gostar de estudar, Junior tinha outra característica grave: fazia pequenos furtos no comércio da cidade. Coisas simples como sabonetes, pastas de dente e alguns bombons.

Delitos que hoje são enquadrados no Princípio da Insignificância, e tem por base a máxima "minimis non curat praetor, isto é,"o pretor (no caso o magistrado, responsável pela aplicação da lei ao caso concreto), não cuida de minudências (questões insignificantes)".

Certo dia, um destes pequenos delitos foi descoberto, o dono do estabelecimento chamou a polícia e meu amigo foi preso. Lembro-me de ter a porta do apartamento socada por policiais que conseguiram o endereço através de meu amigo.

Fui até a delegacia e Junior estava aos prantos.

" Ligue para meu pai me tirar daqui ".

Ligar para seu Cardoso nestas circunstâncias seria uma hecatombe, pois conhecia seu posicionamento sobre honestidade. Demorei horas em frente ao prédio da Embratel, ao lado da Catedral, mas não havia outra coisa a fazer, após ver meu amigo algemado ao lado de investigadores com cara de poucos amigos.

Após explicar o caso, seu Cardoso apenas disse:"Deixe ele lá esta noite. Amanhã de manhã quero que esteja lá, Zé Bento".

Apesar de meu nome ser Fernando, Zé Bento era a forma que meu pai, carinhosamente me chamava.

Voltei à delegacia para avisar o Júnior, que foi recolhido para uma cela individual, em prantos.

No dia seguinte, de manhã, chegou o Seu Cardoso. Sem dizer bom dia, já foi falando:" Venha e que o que vai ver te sirva de lição também ". Enrolou a cinta no punho e entramos. Seus olhos faiscavam.

O delegado de plantão começou a explicar o caso, quando Seu Cardoso pediu para falar um minuto com seu filho. O delegado concordou.

Mas o que vi e ouvi não foi nem um monólogo, pois apenas era possível ouvir o som do cinto no corpo de meu amigo. Seu Cardoso só parou quando o delegado o advertiu que se continuasse, teria que prendê-lo em flagrante delito. Ele parou, mas ainda hoje, 38 anos depois, ainda vejo o punho de Seu Cardoso tremendo no alto e seus olhos marejados.

"Vamos vagabundo. Em casa continuamos esta conversa".

Júnior não voltou para a escola nesta semana. A coordenadora pedagógica perguntou sobre ele e eu disse que teve uns problemas pessoais e precisou voltar para casa.

Como nossa cidade era bem pequena, ele foi visto lavando a calçada da loja da família, as portas de folha de correr, as vitrines e tudo mais durante dia. À noite, sua mãe reservava boa parte dos serviços domésticos para ele, até altas horas. Suas irmãs tiveram um pequeno alívio nos afazeres domésticos. Às 05h00 começava de novo o trabalho na loja. Sempre de cabeça baixa e sem direito a emitir sons com a boca.

Na semana seguinte, os estudos passaram a ser como combinado, todo dia e para ambos. Júnior não teve autorização de ir ao cinema nos próximos seis meses e eu, por lealdade, também não fui.

Passamos a frequentar, semanalmente, nossas igrejas. Eu ia para a Igreja Luterana e ele ia comigo ao Centro Espirita. O leitor já deve estar convicto de que antes de alterar esta rotina idealizada por Seu Cardoso, solicitamos a sua aprovação.

Nunca mais falamos sobre o assunto. Não era mais necessário qualquer comentário pois a lição já estava aprendida de forma definitiva.

Somos amigos até hoje, ele luterano e eu espírita. Ele foi para a medicina e eu para a informática.

Não ficamos traumatizados como muitos 'especialistas" dizem e publicam longos artigos sobre o assunto.

Ficamos educados para a vida responsável.

P.S. Exceto pelos nomes do Seu Cardoso e do Júnior, os fatos são verídicos.

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